Há um momento em que a diplomacia deixa de ser prudência e passa a ser medo. A ameaça de Donald Trump de impor tarifas a países que se oponham à anexação da Gronelândia marca exatamente esse ponto. Não é mais uma provocação para consumo interno. É chantagem económica explícita, acompanhada da insinuação clara de uso da força militar contra território europeu.
Convém dizê-lo sem rodeios: um presidente dos Estados Unidos está a ameaçar aliados da NATO para forçar a cedência de território soberano. Se isto viesse de Moscovo ou de Pequim, o discurso seria imediato: imperialismo, violação da ordem internacional, ameaça direta à soberania europeia. Como vem de Washington, a resposta é pedir “conversações técnicas” e fingir que o problema é de comunicação.
A China não reagiria assim. A Rússia não reagiria assim. Nenhuma potência que se leve a sério reage assim.
Trump faz o que sempre fez. Testa limites, mistura segurança nacional com interesses comerciais e aposta na fragmentação do adversário. Usa tarifas como arma política porque sabe que funcionam. O problema não é Trump ser Trump. O problema é ele saber que, do lado europeu, encontrará líderes que confundem contenção com passividade e diplomacia com adiamento.
A União Europeia não é fraca. Isso já nem é discutível. É o maior mercado único do mundo, uma potência regulatória capaz de impor regras globais, um bloco de 450 milhões de consumidores com capacidade de retaliação comercial devastadora. Se quisesse, poderia responder a Trump da única forma que ele respeita: custo real, imediato e mensurável.
Tarifas americanas sobre produtos europeus teriam resposta cirúrgica: tecnologia, serviços financeiros, contratos públicos, gigantes digitais norte-americanos que dependem estruturalmente do acesso ao mercado europeu. A China mostrou como se faz. Não grita, não implora, não moraliza. Responde de forma coordenada e dolorosa.
Em vez disso, a Europa refugia-se num discurso abstrato sobre a NATO, como se invocar a sigla resolvesse tudo. A NATO é uma aliança militar, não um escudo contra coerção económica nem um substituto da vontade política europeia. E o paradoxo é óbvio: é o próprio Trump quem mais contribuiu para esvaziar a credibilidade dessa aliança, ao tratá-la como instrumento transacional.
A questão da Gronelândia expõe uma verdade desconfortável. A Europa já é vista como um ator político global, mas continua a comportar-se como um protetorado envergonhado. Tem instrumentos, tem legitimidade, tem razão do seu lado. Falta-lhe apenas agir como quem sabe isso.
É aqui que entra o segundo problema, muitas vezes usado como desculpa: os bloqueios internos. Sempre que se fala em resposta firme, surge a Hungria, ou Estados semelhantes, como argumento para a inação. Como se a União Europeia fosse refém permanente de governos que não acreditam no projeto europeu e vivem, paradoxalmente, dos seus fundos.
Esse argumento não resiste aos factos. Do ponto de vista institucional, a UE pode avançar usando três alavancas combinadas: cooperação reforçada, condicionalidade financeira automática e externalização das decisões estratégicas para formatos intergovernamentais compatíveis com os Tratados. Isto permite criar políticas de defesa, retaliação comercial e alinhamento diplomático através de grupos de Estados dispostos, financiadas por instrumentos comuns e operacionalizadas por estruturas europeias já existentes. Quem não adere, não participa, não decide e não beneficia. Não há expulsão formal, mas há exclusão funcional. É legal, já foi feito e não exige alterações imediatas aos Tratados, apenas coordenação política.
Em paralelo, a Comissão e o Conselho podem transformar o mecanismo de condicionalidade do Estado de direito num instrumento quase automático, ligando qualquer bloqueio estratégico a suspensões proporcionais de fundos estruturais, agrícolas e de recuperação. Sem discursos morais, sem dramatismo. Bloqueias decisões vitais, perdes acesso a recursos comuns. Simples, previsível, eficaz. Ao mesmo tempo, a presidência rotativa do Conselho e o Parlamento Europeu podem marginalizar sistematicamente esses Estados na distribuição de dossiês, relatorias e cargos-chave. Muito poder na UE não está nos Tratados. Está na prática quotidiana.
A UE não precisa de expulsar ninguém para impor disciplina. Precisa apenas de parar de fingir que todos os membros jogam o mesmo jogo. Quando os custos forem reais e contínuos, a escolha deixa de ser ideológica e passa a ser contabilística. E isso costuma produzir consensos muito rápidos.
Os líderes europeus continuam a tratar a hostilidade externa como sinal de fraqueza interna. É exatamente o contrário. Trump ataca a Europa porque ela funciona. Porque regula, porque protege, porque limita abusos e porque não se ajoelha automaticamente perante interesses americanos. A resposta lógica não é desmontar esse modelo, mas defendê-lo com firmeza.
Quando Trump ameaça tarifas para forçar a anexação de território europeu, a resposta não devia ser um grupo de trabalho. Devia ser uma mensagem clara: a Europa não negocia sob ameaça. E quem usa a economia como arma contra aliados será tratado como adversário, não como parceiro especial.
A pergunta já não é se a Europa é forte o suficiente. É se os seus líderes estão à altura dela. Enquanto confundirem prudência com submissão, Trump continuará a avançar. No dia em que a Europa responder como a China responderia, com unidade, retaliação e frieza estratégica, a conversa muda. E muda depressa.
Até lá, Trump continuará a fazer o que faz melhor: intimidar quem deixa.




